sexta-feira, 30 de maio de 2014

"Homeless folk, 1 st eliminated from the World Cup", denuncia protesto em SP

Protesto com futebol dos moradores de rua e agentes pastorais. Foto: Lara Tapety
Um protesto contra a “área de exclusão” criada pelos governos seguindo as exigências da Fifa para a Copa do Mundo chamou atenção perto de onde acontecia mais uma grande manifestação e assembleia ao ar livre dos trabalhadores da educação municipal de São Paulo em greve há um mês e meio.

Enquanto os grevistas aprovavam a continuidade do movimento, moradores de rua e freis jogavam bola no meio da Rua Líbero Badaró, perto da Prefeitura da cidade. Era o “Futebol popular ocupando a rua”, como estava escrito em uma das faixas levadas pelos manifestantes. Também foram destacados os dizeres “Lutar não é crime” e “Povo da rua, 1º eliminado da Copa”. Esta última frase também foi colocada em inglês nas camisas: “Homeless folk, 1 st eliminated from the World Cup”. 

“Homeless folk, 1 st eliminated from the World Cup”. Foto: Lara Tapety
Entrevistei alguns dos organizadores do protesto, convocado pelo Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais (CATS) em parceria com a Pastoral do Povo de Rua, que se identificaram apenas como frei Agnus e Paulo.

Frei Agnus, da Pastoral do Povo de Rua, explicou que a Fifa cria, em cada cidade-sede de jogos da Copa do Mundo, uma área de exclusão chamada ‘Fifa Fan Fest’, onde são colocados de 6 a 8 telões para exibir os jogos do Mundial de futebol. “Aqui em São Paulo essa área será no Anhangabaú. Porém, em um raio de 2km disso, que vai da Santa Cecília ao Brás – da estação do Metrô São Joaquim à estação da Luz –, é a chamada área de exclusão e só entra vendedor ambulante credenciado pela Fifa, além do público. Nesse entorno não pode entrar, por exemplo, vendedor de cachorro quente e de pipoca, desde que seja credenciado”, disse.

O tal do credenciamento é limitado pela Fifa. Quem está credenciado entra, quem não está não pode vender nada. Onde entram os moradores de rua neste contexto? O frei responde: “Não entram, porque é uma área de fato de exclusão, frequentada mais por turistas. Então, eles [os policiais] tiram os moradores de rua”.

"Futebol popular ocupando a rua". Foto: Lara Tapety
O membro do Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais (CATS), Paulo, relatou que o povo da rua está sendo expulso da cidade por conta da Copa: “Hoje mesmo na Alcântara Machado houve uma operação em baixo do viaduto onde a Tropa de Choque retirou à força as pessoas que colocam suas barracas”. Segundo ele, o problema é que a prefeitura só oferece albergue, mas as pessoas querem moradia. “Isso [a operação do Choque] já aconteceu no Glicério, na Sé. Albergue não é a solução para eles”, falou. 

Faixa: Lutar não é crime, CATS. Foto: Lara Tapety
Alguém pode achar que é melhor passar a noite nos conhecidos centros de convivência que ao relento, na rua. Mas, a situação é muito mais complicada do que se imagina. Além do fato dos albergues serem uma tentativa evidente de ‘tapar o sol com a peneira’, sem acompanhamento de políticas públicas, possuem péssimas condições e muitas restrições. 

Imagine uma família de moradores de rua procurar um lugar pra dormir, encontrar vaga para a mãe e para o pai, mas não ter vaga para suas crianças. Ah, e quem tem um animal de estimação? Não há canis. Tem que deixar o cachorro na rua (ué, abandono de animais não é crime?), porque é proibida a entrada de pets domésticos. Já baratas e ratos... 

Chuveiros sem funcionar, banheiros entupidos e falta de material de limpeza são apenas alguns exemplos da falta de respeito de como são tratados os desabrigados e os funcionários públicos. Nenhum trabalhador quer ser tratado como bicho (e nem bicho deve ser mal tratado). Assim, pode ser menos mal ficar na rua. 

Vale destacar que, ao contrário do que alguns acreditam, as remoções – muito truculentas, por sinal – não são justificáveis para combater o tráfico de drogas, primeiro, porque comprovadamente a maioria dos moradores de rua não são usuários, segundo, porque estupidez e proibição não chegam perto de sanar os problemas gerados pelo tráfico (que, por sua vez, só existe porque as drogas não são legalizadas, não é?).

Para piorar a problemática, o prefeito Haddad (PT), muito preocupado com o povo (pra não dizer o contrário) legitimou a aprovação da Câmara Municipal do corte de 15% na verba da área social, apesar do recorde na arrecadação. Pra enrolar, aumentou o valor do ‘bolsa-aluguel’, tão baixo que parte das famílias continuou nas calçadas por não encontrar um lar digno. Não aumentou da mesma forma a distribuição do benefício, nem de moradia.

“Por conta dessas operações que estão havendo, principalmente na Radial Leste, que é sentido dos jogos da Copa, em que estão expulsando o povo com uso de muita violência, estamos aqui fazendo esse futebol como um ato simbólico contra a Copa do Mundo que exclui a galera de rua”, disse o integrante do CATS.

Charge do cartunista Carlos Latuff denuncia a repressão do governo Dilma aos protestos contra as injustiças para a realização da Copa do Mundo no Brasil.