segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Eu tenho ligação...

Eu tenho ligação com Sandra Fernandes, professora e militante da causa feminista, e seu filho Cauã, assassinados brutalmente pelo namorado de Sandra, em 2014;
Com Santiago Andrade, cinegrafista que, sem estar com equipamento de proteção individual que deveria ser fornecido pela empresa, faleceu após ser atingido por um rojão em uma manifestação do Rio de Janeiro, em 2014;
Com Marcleudo Ferreira, Raimundo da Costa, José Antônio Nascimento e Antônio José Martins, operários que morreram nas obras da Copa do Mundo, na Amazônia, entre 2013 e 2014;
Com Kaique Augusto Batista, jovem homossexual, encontrado morto com sinais de crime homofóbico, e que teve a ocorrência registrada como suicídio, em 2014;
Com Douglas Rodrigues, jovem negro, morador da periferia da Zona Norte de São Paulo, assassinado pela Polícia Militar, em 2013;
Com Amarildo Souza, trabalhador negro, morador da Rocinha no Rio de Janeiro, assassinado pela Polícia Militar (que tentou fazer a opinião pública acreditar que tinha envolvimento com o tráfico, mas não conseguiu), em 2013;
Com Ricardo Gomes, funcionário terceirizado da Unifesp em Santos, que respondeu a uma ofensa por policiais militares, foi agredido e possivelmente assassinado pelos mesmos, em 2013;
Com Lucas Fortuna, jornalista e militante do movimento LBGT, encontrado morto com vários indícios de assassinato por motivo de homofobia, mas até hoje dizem que a causa da morte foi afogamento, em 2012;
Com Jaelson Melquíades, Luciano Alves, José Elenilson e Chico do Sindicato, dirigentes do MST em Alagoas, mortos a mando de políticos de direita e grileiros durante conflitos por terra, respectivamente em 2005, 2003, 2001 e 1995;
Com Galdino dos Santos, líder indígena que foi queimado vivo enquanto dormia em um ponto de ônibus em Brasília, em 1997;
Com Chico Mendes, seringueiro e sindicalista que lutava pela preservação da Amazônia, assassinado por fazendeiros com a conivência do Estado (que ignorou seu apelo por proteção), em 1988;
Enfim, com os que tombaram nas mãos da intolerância, do racismo, do machismo, da homofobia, da ganância, do egoísmo, da falta de caráter e da falta de amor;
E também com os que estão de pé, firmes e fortes;
Com todos que sonham e lutam por um mundo livre de opressões, exploração e injustiças;
Com Carlos Lima, historiador e coordenador estadual da Comissão Pastoral da Terra em Alagoas;
Com Zé Maria, operário, sindicalista e presidente nacional do PSTU, preso por lutar contra a ditadura militar e anistiado político após 35 anos;
Com os manifestantes detidos e presos durante as jornadas de junho de 2013 e também durante os protestos contra os gastos com a Copa do Mundo em detrimento a falta de investimento nos serviços públicos, sejam eles anarquistas adeptos à Black Bloc (embora discorde de seus métodos) ou não, socialistas ou comunistas, ou simplesmente indignados com os problemas sociais.
E, se o leitor achou que eu diria "eu tenho ligação com o Freixo", estava certo. Apesar das discordâncias, por que não dizer?
Eu também tenho ligação com Marcelo Freixo, professor e defensor dos direitos humanos, que foi presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito das Milícias e teve seu irmão assassinado por milicianos, em 2006.
As ligações às vezes doem, machucam e sangram; às vezes florescem, crescem e amam. O bom é saber que tenho ligações com tudo o que dá sentido à vida.
E, se lutar é crime, podem me prender. Mas, saibam, não há presídio que prenda sonhos. 

Lara Tapety

*Este texto estava sendo produzido no meu diário pessoal, que acabou as páginas e ainda não tive tempo nem dinheiro para comprar outro. Isto é, trata-se de ideias e ideais pessoais, que não necessariamente refletem a posição da organização política a qual faço parte.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ato nacional contra injustiças da Copa retoma a jornada de lutas iniciada em junho de 2013


O dia 25 de janeiro de 2013 foi marcado por protestos com o tema “Não vai ter Copa”, em várias cidades do Brasil. Em São Paulo, mais de 2500 pessoas participaram da caminhada pacífica pelo Centro da cidade. O recado para o governo Dilma e para a Fifa foi dado: na Copa, vai ter luta!
O protesto paulista contou com diversas “colunas” formadas por sindicatos, centrais sindicais, movimentos sociais, fóruns, partidos e organizações políticas de esquerda e outros grupamentos. Entre os sindicalistas, havia representantes do Sindsef-SP, Sindicato dos Metroviários, Sintrajud, do Movimento Nacional de Oposição Bancária e da CSP-Conlutas.
O servidor público do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e diretor do Sindsef-SP, Ismael Souza, que participou da maioria dos protestos realizados em junho de 2013 e a servidora do Judiciário Federal, Ana Luiza, destacaram que essa nova manifestação é importante porque dá continuidade ao processo de luta iniciado pela juventude, que foi às ruas junto aos trabalhadores para reivindicar mudanças.
"A Copa não traz mudanças, traz mais exploração. Além disso, o que vemos é a exclusão, onde os trabalhadores vão assistir de casa o espetáculo da burguesia, dos patrões. Estamos em uma luta por direitos, o direito à saúde, educação, moradia e transporte. Direitos básicos que a cada ano vêm sendo negados pelos governos", disse Ismael.
Outro ponto criticado pelo representante do Sindsef-SP foi que "o serviço público foi colocado de lado. O que o governo está fazendo é terceirizar mais ainda, porque no evento esportivo será necessário aumentar os serviços de saúde e segurança, e tudo está sendo terceirizado". Deste modo, a Copa do Mundo, além de desviar recursos que poderiam ser investidos em áreas fundamentais, está ligada à precarização do trabalho.
Ana Luiza acredita que os trabalhadores do serviço público de todo o Brasil não aceitam os gastos absurdos para a construção desses estádios. "Eu, como trabalhadora do serviço público federal, assim como meus colegas, tenho que estar presente para construir essa luta, para que a vitória seja de todos nós", falou.

“Da Copa, da Copa, da Copa eu abro mão. Quero mais dinheiro para saúde e educação”

Em meio a um público eclético, estava Vera (11 anos de idade), uma estudante de escola pública que pediu a mãe acompanhá-la. Questionada pelo motivo de sua participação disse: “Eu estou aqui pelo mesmo motivo de todo mundo que também está, porque eu não quero Copa, eu quero dinheiro para educação, para a saúde...”.

“Chega de bomba e repressão, é meu direito à manifestação”



O protesto iniciado no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (MASP) se manteve pacífico durante quase todo o percurso. “Chega de bomba e repressão, é meu direito à manifestação”, foi uma das tantas palavras de ordem que os manifestantes repetiram.
O dentista cirurgião, José Luis (59 anos) disse que sua família e amigos não acreditaram quando ele informou que participaria do protesto. “Acham que aqui só tem jovem, estudante, mas estou aqui defendendo nossos direitos. Também participei dos protestos contra o aumento da passagem no ano passado”, explicou. O cirurgião contou que em uma manifestação no mês de junho precisou correr para dentro de um prédio para fugir da violência policial e que esta é a principal razão da preocupação de sua família: “Eles têm medo que eu tome uma ‘borrachada’ e me machuque, porque vivo da minha mão”.


Quando a caminhada se aproximou de onde estavam acontecendo os shows de comemoração do aniversário de 460 anos da cidade, a Polícia Militar entrou em confronto com os participantes, obrigando-os a mudar o caminho.


A confusão iniciou na Rua Barão de Itapetininga, na região do Theatro Municipal, quando a PM, que já havia levado reforço do Batalhão de Choque e cercado a passeata por muitas ruas, lançou duas bombas de gás lacrimogêneo por volta das 20 horas.


Após a truculência da polícia, houve dispersão do protesto. Alguns grupos partiram em retirada e outros seguiram em passeata, sendo reprimidos com o gás e balas de borracha.
Segundo a própria PM, 135 pessoas foram detidas – 12 eram menores de idade. Elas foram liberadas na manhã do domingo, 26. O mais absurdo é que um jovem de 22 anos foi atingido por dois tiros (um no tórax e um na genitália) com arma letal dos policiais, e o estado dele é considerado grave.


Houve atos contra as injustiças causadas pela realização da Copa do Mundo no Brasil em pelo menos 13 capitais , na tarde e início da noite deste último sábado. Além de São Paulo, destacaram-se na imprensa em geral as manifestações realizadas em Fortaleza, Natal, Rio de Janeiro, Recife, Curitiba, Goiânia, Belo Horizonte e Manaus.


Solidariedade internacional


Dia 25 também foi o “Dia global contra o cerco do ditador Bashar ao campo de palestinos na Síria, Yarmouk”. A ativista síria Sara al Suri esteve presente com a bandeira de seu país no espaço onde estava a CSP-Conlutas e a Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL), que levaram cartazes prestando solidariedade ao povo palestino e sírio.









Por Lara Tapety
(texto e fotos)

Feministas discutem a conjuntura política e iniciam os preparativos para o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora

Reunião de preparação das ações do dia 08 de março, no CIM. Foto: Lara Tapety

No dia 22 de janeiro, dezenas de feministas lotaram o espaço do Centro Integrado da Mulher (CIM) para organizar as ações do histórico dia 08 de março. A maioria das participantes fazem parte de coletivos, organizações, sindicatos e movimentos sociais. Entre eles, o Movimento Mulheres em Luta (MML), a Marcha Mundial de Mulheres, a Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL) e, claro, o Sindsef-SP também não ficou de fora. A secretaria contra opressões e servidores da Defensoria Pública da União (DPU), Brisa Batista, marcou presença.
A mulherada discutiu a conjuntura política com enfoque no gênero. Consecutivas intervenções apresentaram consenso de que o Brasil não é o mesmo desde a onda de protestos de junho de 2013 e fizeram questão de frisar o papel das mulheres, que eram maioria entre os manifestantes, nesse processo de luta.
“O fato de ter mais mulheres na rua é muito forte, considerando que a nossa educação ainda diz que devemos ficar em casa. A gente tem a chance de que o 08 de março de 2014 seja mais um capítulo dessa história que começou no ano passado”, frisou Camila Lisboa, do MML.
Para Camila, o movimento feminista deve conciliar as reivindicações das mulheres com a crítica à realização da Copa do Mundo: "A gente quer menos dinheiro para a Copa e mais dinheiro para investimento nos programas de combate à violência". Ela denunciou, ainda, que no ano de 2012 houve mais de 50 mil denúncias de estupros. "Não queremos que o Brasil se torne como a Índia nesse quesito, e mais, precisamos defender a luta das companheiras deste país", disse.
Por outro lado, quando se fala em combate a violência, as feministas deixam claro que não se trata de usar violência estatal para isto. Sandra Mariano, da Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras do Estado de São Paulo, questionou o orçamento do governo federal destinado para a segurança pública. "É um absurdo que o investimento em bala e cassetete seja maior do que em educação e saúde", frisou.
Sandra aproveitou a oportunidade para falar sobre o fenômeno “rolezinhos”, em que jovens da periferia se encontram para passear nos shoppings. Para a senhora, os "rolezinhos" escancaram que "quem é visado pela repressão policial tem cor e classe, são os negros e pobres".
Ainda a respeito da repressão e da criminalização, Talita Tecedor, do Coletivo Ana Montenegro, falou que há um crescimento de movimentos fascistas. Ela relatou casos de que militantes de organizações de esquerda foram expulsos de manifestações por estarem caracterizados com camisas e adesivos.
Além disso, Talita destacou também como um elemento novo na situação do país o aumento dos "estupros corretivos" (quando as vítimas são violentadas para mudarem sua orientação sexual de lésbica para heterossexual) e do tráfico de mulheres, principalmente para o entorno das obras dos megaeventos (isto é, garotas são exploradas sexualmente por homens a serviço da construção dos estádios para a Copa).
Entre outros pontos discutidos estavam a luta pela regulamentação do trabalho doméstico, que ainda não foi aprovada no Congresso Nacional; por políticas públicas para as mulheres; a denúncia do "Bolsa Estupro" e a necessidade de exigir sua anulação e a polêmica reforma política.
Ao final, as ativistas do MML convidaram as companheiras para participar do início da reunião da executiva do movimento, que irá discutir a Campanha Nacional Contra a Violência a Mulher, a partir das 9h deste próximo sábado, 24/01, na sede nacional da CSP-Conlutas (Rua Boa Vista, 76 – 11° andar). A iniciativa da campanha foi uma deliberação do 1º Encontro do MML, que contou com a presença de 2.300 pessoas, em outubro do ano passado.
As próximas reuniões de organização das manifestações do dia 08 de março vão acontecer todas as quartas-feiras, às 18h, na sede da APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), localizada na Praça da República, nº 282.




Por Lara Tapety
(Imprensa Sindsef-SP)