quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Serviço Público Padrão Fifa


Neste ano de Copa do Mundo, a campanha salarial dos servidores federais chama atenção para a necessidade de o governo investir e valorizar o setor público, ao invés de privilegiar os bancos, as grandes empresas (das empreiteiras e do agronegócio) e dedicar quase 50% do orçamento da União para o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública.
Mais do que nunca, a palavra de ordem “Da Copa, eu abro mão. Quero dinheiro pra saúde e educação”, tão entoada durante a jornada de protestos de junho de 2013, comtempla a realidade do país. A presidente Dilma Rousseff, ao contrário do que pronunciou, não escutou as vozes das ruas. Isso fica evidente em qualquer comparação entre as reivindicações dos manifestantes e os investimentos do governo federal. As prioridades não são as mesmas.
Segundo dados da Auditoria Cidadã da Dívida, enquanto o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2014 prevê um total de despesas de R$ 2,4 trilhões, dos quais R$ 1,002 trilhão (42%) é destinado para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública; a soma de investimentos em setores fundamentais como saúde, educação e transporte não chega a 10%. Já para os gastos com pessoal (os servidores públicos), o PLOA prevê somente a segunda parcela do reajuste anual de 5%, que sequer cobre a inflação do período.
Além disso, em um levantamento de dados do Portal da Transparência da CGU (Controladoria-Geral da União) foi possível verificar que em 9 das 12 cidades-sede o financiamento federal para a construção e reforma dos estádios para a Copa é maior do que os repasses da União para a educação nos últimos quatro anos.
Nada mais oportuno que a Campanha Salarial 2014 do funcionalismo tenha o tema “Jogando juntos a gente conquista – Serviço Público Padrão Fifa” e o subtema “Servidor público federal: sem este time o Brasil não entra em campo – Valorização, já!”. Se o governo quer um Brasil bonito pra gringo ver, que comece a investir verdadeiramente em saúde, educação, moradia e transporte públicos, fornecendo, além de infraestrutura, salários dignos e condições de trabalho!
Diversas ações já estão em andamento para dar fôlego à campanha. Os materiais de divulgação estão prontos. Foram criados modelos de adesivos para carro, para uso geral, anúncio, cartaz, faixa, folheto, pirulito e imagens para redes sociais (clique aqui para download). O Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais também preparou um jornal especial sobre o assunto (veja aqui).
O calendário de lançamento da campanha foi reforçado durante a reunião do Fórum na última terça-feira, 14, em Brasília, com a confirmação de mobilização nos estados no próximo dia 22 e atividade em Brasília no dia 5 de fevereiro. No dia 6, as entidades nacionais promovem um debate sobre a dívida pública. Haverá uma reunião ampliada das mesmas no dia seguinte.
Entre as bandeiras do funcionalismo estão: a luta por uma política salarial permanente; paridade entre ativos, aposentados e pensionistas; definição de data-base; regulamentação da negociação coletiva; diretrizes de plano de carreira; retirada de projetos no Congresso Nacional que prejudicam os trabalhadores públicos; cumprimento por parte do governo de acordos e protocolos de intenções firmados em processos de negociação, bem como a antecipação da parcela de reajuste prevista para janeiro de 2015 e o reajuste em benefícios.
Desde já, com a unificação das lutas, é importante que todas e todos se engajem nas atividades da campanha para arrancar o atendimento às reivindicações antes da realização da Copa. Caso o governo se negue a negociar e atender a pauta da categoria, a partir da segunda quinzena de março inicia o período indicativo da greve dos servidores federais. O governo Dilma que se prepare! 2014 promete!



*Por Lara Tapety, com informações da Condsef, 
Comitê Popular da Copa e Fórum das Entidades
Nacionais dos Servidores Públicos Federais.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Crítica à novela Amor à Vida: Globo, os palestinos não se veem por aí

Em "Amor à Vida", Pérsio revela para Rebeca que foi um terrorista - Foto: Divulgação / TV Globo

Em 19 de dezembro, foi ao ar na chamada “novela das nove” da TV Globo, intitulada “Amor à vida”, uma cena que não deixa dúvidas a quem serve à emissora: aos interesses hegemônicos e ao império. A telenovela líder da audiência em âmbito nacional, seguida pelo Jornal Nacional, apresentou na trama um romance entre um palestino, Pérsio (Mouhamed Harfouch), e uma judia, Rebeca (Paula Braun).
No capítulo em questão, o primeiro deles declara que pertenceu a uma “célula terrorista” e se diz arrependido: “Eu queria ser um homem bomba. Achava que era um sacrifício justo pela causa do meu povo. Só não fui porque eu sou filho único, a minha mãe me procurou, insistiu demais pra eu desistir. Mas eu ajudei a organizar um atentado. Um amigo meu, um amigo próximo, foi o homem bomba. Ele entrou num ônibus em Jerusalém e explodiu, matando muita gente. Mulheres, crianças… crianças como o seu irmãozinho, Rebeca. Eu me senti culpado, quando vi o seu irmão, quando falei com a sua família. Eu percebi que a guerra, o terrorismo, atinge pessoas indefesas, crianças. Vendo aquele menino sorrindo, eu percebi que um dia eu quis atacar crianças como ele. Como eu posso dizer que aquele menino é meu inimigo?”.
Alguns capítulos depois, no dia 30, em uma nova conversa, Rebeca se recusa a falar com Pérsio, a não ser profissionalmente, pelo que ele quis fazer com “seu povo”. E em cena no dia 7 de janeiro último, a personagem busca conselhos junto a um rabino, já que teria se apaixonado por “um árabe, um palestino”, pertencente a um “grupo terrorista”.
O diálogo que inaugura essa farsa é permeado por desinformação, distorção e manipulação da verdade. Rebeca chega a afirmar que há muitos casais judeus e palestinos em Israel, como conviria a qualquer estado democrático. A verdade é que a própria convivência está comprometida. O apartheid imposto aos palestinos impede até que vivam no mesmo bairro. Alguém poderia afirmar que conhece um caso assim na atualidade. Mas não é essa a regra. Os palestinos que vivem onde hoje é Israel (território palestino até 1948, ano da criação desse estado como exclusivamente judeu) são considerados cidadãos de segunda ou terceira categoria, discriminados cotidianamente – há 30 leis racistas contra essas pessoas, que lhes impedem ter os mesmos direitos. Há dezenas de aldeias em que vivem que sequer são reconhecidas por Israel, o que significa que não lhes são assegurados serviços essenciais, como fornecimento de eletricidade, água, educação e saúde de qualidade.

Quem é o terrorista?
Em 1948, ano que na memória coletiva árabe é conhecido como “Nakba”, a catástrofe, foram expulsos de suas terras e propriedades cerca de 800 mil palestinos e aproximadamente 500 aldeias foram destruídas para dar lugar a Israel. Massacres exemplares são hoje comprovados. Os palestinos, desumanizados desde o início desse projeto de limpeza étnica e colonização de suas terras, não foram apagados da história graças a sua resistência – apresentada na telenovela da Globo como terrorismo. Resistência reconhecida pelo direito internacional como legítima diante da ocupação.

Mulher segura cartaz com charge do brasileiro Latuff sobre o bloqueio à Gaza, no Dia Internacional de Jerusalém (Al-Quds) em Nova York - Foto: Bud Korotzer
Ademais, os chamados atentados com homens bomba, atos desesperados perante o silêncio do mundo e a falta de alternativas, há muito foram abandonados. A contextualização histórica sobre o terror de Estado que fabricou esses “homens bomba”, durante um tempo determinado, ficou fora da telinha. Assim como os contínuos ataques israelenses, que atingem, sobretudo, crianças e mulheres, com tecnologias de última geração vendidas depois ao mundo. Os laboratórios humanos em que se transformaram os palestinos no shopping center que se converteu Israel à venda de suas parafernálias militares também não encontraram lugar no diálogo que foi ao ar na “novela das oito”.
O autor de “Amor à vida”, Walcyr Carrasco, reforçou, assim, mitos que são denunciados pelo historiador israelense Ilan Pappe em seu artigo “Os dez mitos de Israel”. Entre eles, de que a luta palestina não tem outro objetivo que não o terror e que Israel é “forçado” a responder à violência. Segundo ele, a história distorcida serve à opressão, à colonização e à ocupação. “A ampla aceitação mundial da narrativa sionista é baseada em um conjunto de mitos que, ao final, lançam dúvidas sobre o direito moral palestino, o comportamento ético e as chances de qualquer paz justa no futuro. A razão é que esses mitos são aceitos pela grande mídia no Ocidente e pelas elites políticas como verdade.”
O Brasil não é exceção. Na contramão da campanha global por boicotes ao apartheid israelense, o governo federal se tornou nos últimos anos o segundo maior importador de tecnologias militares da potência que ocupa a Palestina e porta de entrada dessa indústria à América Latina. E sua cumplicidade com a opressão, ocupação e apartheid a que estão submetidos os palestinos é justificada a milhares de espectadores desavisados da novela da Globo, através de um discurso que reproduz a versão falsificada da história e se fortalece perante a representação orientalista – em que os árabes seriam “orientais” bárbaros e atrasados, ante cidadãos pacíficos e civilizados, segundo explicita o intelectual palestino Edward Said em seu livro “Orientalismo, o Oriente como invenção do Ocidente”.

Democratização já!
Num cenário de concentração midiática, preconceitos como esse – não são os únicos – são especialmente graves. Assim como é bastante preocupante que o tradicional show natalino do cantor Roberto Carlos, exibido na mesma emissora ao final de 2013, tenha sido patrocinado pela marca Café Três Corações, que tem como acionista majoritária uma empresa israelense cuja colaboração com a opressão em terras palestinas já foi amplamente denunciada.     Apesar do crescimento acentuado de usuários da internet – que chegaram à marca de 94,2 milhões ao final de 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) –, a maioria da população brasileira ainda se informa sobretudo pela TV, presente em 96,9% dos domicílios, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE). Enquanto a propaganda nesse meio é o principal impulsionador ao consumo, programas de entretenimento como as telenovelas igualmente moldam comportamentos, conceitos e ideias. E a produção desses encontra-se nas mãos de apenas seis famílias, detentoras das concessões públicas que lhes garantem espaço para difundir livremente preconceitos e falsificações históricas. Outorgas concedidas muitas vezes ao arrepio das leis vigentes, renovadas pelo governo brasileiro sem qualquer critério para garantir a pluralidade e diversidade na produção cultural.


Para transformar a realidade, é fundamental reforçar a luta pela democratização das comunicações e denunciar essas distorções que grassam na TV brasileira. É importante se somar às vozes que, nas manifestações de junho de 2013, protestaram contra o monopólio da mídia e elegeram para tanto o lema: “Globo, a gente não se vê por aqui”.     



Por Soraya Misleh,
da Frente em Defesa do Povo Palestino e do Movimento Palestina Para Tod@s

*Texto revisado e com imagens adicionadas pela autora deste blog.