segunda-feira, 21 de julho de 2014

Ato em apoio à Palestina reúne milhares de pessoas em São Paulo

Ato pró-Palestina aconteceu na região do Consulado de Israel em São Paulo. Foto: Lara Tapety
Milhares de pessoas tomaram as ruas de São Paulo no ultimo sábado, 19/07, em solidariedade ao povo palestino e contra o genocídio promovido por Israel. Até aquele 12º dia de operação do Exército israelense, pelo menos 300 palestinos haviam sido mortos (a maioria civis entre mulheres, crianças e idosos), 1500 feridos e mais de 17.000 expulsos de suas casas. Estes tristes números estão perto de dobrar.

Sangue de inocentes – No último domingo, o porta-voz dos serviços de emergência palestinos, Ashraf al-Qudra, informou que entre os 425 mortos até aquele momento havia 112 crianças, 41 mulheres e 25 idosos. Somente neste mesmo dia, mais de 140 palestinos perderam a vida em bombardeiros aéreos e ataques por terra perpetrados por Israel, que perdeu mais 13 soldados, totalizando 18 mortos sionistas. 
Na data desta notícia, 21/07, o número de palestinos mortos na Faixa de Gaza já ultrapassou 500, desde o início da ofensiva em 08/07.

Ato contra o genocídio – A organização do Ato unificado estima que tenha reunido 5.000 ativistas ligados à entidades árabes e de apoio aos palestinos, sindicatos, centrais sindicais, como a CSP-Conlutas, movimentos sociais, com destaque para o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), e partidos como o PSTU, PCB e PSOL.
Os manifestantes se concentraram em frente à sede da Rede Globo e partiram em caminhada até o Consulado de Israel, na região nobre de Berrini.
Com faixas, catazes e palavras-de-ordem como “Estado de Israel, estado assassino, e viva a luta do povo palestino”, os participantes denunciaram os crimes de Israel e a desproporcionalidade dos ataques. Naquele sábado, contava-se apenas 03 israelenses mortos (sendo 01 soldado e 02 civis) para quase 350 palestinos civis assassinados.
Entre os participantes, também havia judeus brasileiros. Um deles exibiu o cartaz: "Palestina para todos. Eu sou judeu e apoio a causa palestina. Israel = Estado terrorista".
Judeu leva cartaz ao Ato em solidariedade ao povo palestino. Foto: Lara Tapety
Ao chegar ao destino final do Ato pacífico, o Consulado de Israel, os ativistas encontraram a Tropa de Choque fazendo a “segurança” do local. Sem que se deixar abalar por provocações, o protesto foi encerrado após várias intervenções ao microfone. O recado foi dado ao Cônsul: “Viemos exigir em nome da alma dessas crianças que vocês assassinaram: Fora da Palestina!”, disse Emir Mourad, da Federação Árabe do Brasil.
Tropa de Choque se posiciona em frente ao Consulado de Israel. Foto: Lara Tapety
“Hoje a luta do povo palestino não é uma luta só dos palestinos, é uma luta de toda a humanidade”, afirmou Soraya Misleh, ativista do Movimento Palestina para Todos – Mopat.
Para Soraya, a solidariedade internacional ao povo palestino é muito importante porque o que está acontecendo é um genocídio por cobiça de território. E, um grande passo para que a Palestina seja livre, laica e democrática é a ruptura por parte dos governos com relações militares, comerciais e diplomáticas com Israel.

Apoio internacional – No mesmo sábado, 19, centenas de famílias de Paris voltaram às ruas como resposta a decisão inédita na Europa por parte da prefeitura da cidade em proibir manifestação em apoio aos palestinos. Sob gritos de “Somos todos palestinos”, houve confronto entre a polícia e os simpatizantes pró-palestinos indignados com a proibição do ato.
As manifestações contrárias aos arremates israelenses à Faixa de Gaza só cresceram e espalharam-se por várias outras cidades francesas e europeias sem registros de violência, já que não ainda não foram proibidas e, portanto, não tiveram repressão policial.


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Texto: Lara Tapety / Sindsef-SP

sexta-feira, 30 de maio de 2014

"Homeless folk, 1 st eliminated from the World Cup", denuncia protesto em SP

Protesto com futebol dos moradores de rua e agentes pastorais. Foto: Lara Tapety
Um protesto contra a “área de exclusão” criada pelos governos seguindo as exigências da Fifa para a Copa do Mundo chamou atenção perto de onde acontecia mais uma grande manifestação e assembleia ao ar livre dos trabalhadores da educação municipal de São Paulo em greve há um mês e meio.

Enquanto os grevistas aprovavam a continuidade do movimento, moradores de rua e freis jogavam bola no meio da Rua Líbero Badaró, perto da Prefeitura da cidade. Era o “Futebol popular ocupando a rua”, como estava escrito em uma das faixas levadas pelos manifestantes. Também foram destacados os dizeres “Lutar não é crime” e “Povo da rua, 1º eliminado da Copa”. Esta última frase também foi colocada em inglês nas camisas: “Homeless folk, 1 st eliminated from the World Cup”. 

“Homeless folk, 1 st eliminated from the World Cup”. Foto: Lara Tapety
Entrevistei alguns dos organizadores do protesto, convocado pelo Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais (CATS) em parceria com a Pastoral do Povo de Rua, que se identificaram apenas como frei Agnus e Paulo.

Frei Agnus, da Pastoral do Povo de Rua, explicou que a Fifa cria, em cada cidade-sede de jogos da Copa do Mundo, uma área de exclusão chamada ‘Fifa Fan Fest’, onde são colocados de 6 a 8 telões para exibir os jogos do Mundial de futebol. “Aqui em São Paulo essa área será no Anhangabaú. Porém, em um raio de 2km disso, que vai da Santa Cecília ao Brás – da estação do Metrô São Joaquim à estação da Luz –, é a chamada área de exclusão e só entra vendedor ambulante credenciado pela Fifa, além do público. Nesse entorno não pode entrar, por exemplo, vendedor de cachorro quente e de pipoca, desde que seja credenciado”, disse.

O tal do credenciamento é limitado pela Fifa. Quem está credenciado entra, quem não está não pode vender nada. Onde entram os moradores de rua neste contexto? O frei responde: “Não entram, porque é uma área de fato de exclusão, frequentada mais por turistas. Então, eles [os policiais] tiram os moradores de rua”.

"Futebol popular ocupando a rua". Foto: Lara Tapety
O membro do Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais (CATS), Paulo, relatou que o povo da rua está sendo expulso da cidade por conta da Copa: “Hoje mesmo na Alcântara Machado houve uma operação em baixo do viaduto onde a Tropa de Choque retirou à força as pessoas que colocam suas barracas”. Segundo ele, o problema é que a prefeitura só oferece albergue, mas as pessoas querem moradia. “Isso [a operação do Choque] já aconteceu no Glicério, na Sé. Albergue não é a solução para eles”, falou. 

Faixa: Lutar não é crime, CATS. Foto: Lara Tapety
Alguém pode achar que é melhor passar a noite nos conhecidos centros de convivência que ao relento, na rua. Mas, a situação é muito mais complicada do que se imagina. Além do fato dos albergues serem uma tentativa evidente de ‘tapar o sol com a peneira’, sem acompanhamento de políticas públicas, possuem péssimas condições e muitas restrições. 

Imagine uma família de moradores de rua procurar um lugar pra dormir, encontrar vaga para a mãe e para o pai, mas não ter vaga para suas crianças. Ah, e quem tem um animal de estimação? Não há canis. Tem que deixar o cachorro na rua (ué, abandono de animais não é crime?), porque é proibida a entrada de pets domésticos. Já baratas e ratos... 

Chuveiros sem funcionar, banheiros entupidos e falta de material de limpeza são apenas alguns exemplos da falta de respeito de como são tratados os desabrigados e os funcionários públicos. Nenhum trabalhador quer ser tratado como bicho (e nem bicho deve ser mal tratado). Assim, pode ser menos mal ficar na rua. 

Vale destacar que, ao contrário do que alguns acreditam, as remoções – muito truculentas, por sinal – não são justificáveis para combater o tráfico de drogas, primeiro, porque comprovadamente a maioria dos moradores de rua não são usuários, segundo, porque estupidez e proibição não chegam perto de sanar os problemas gerados pelo tráfico (que, por sua vez, só existe porque as drogas não são legalizadas, não é?).

Para piorar a problemática, o prefeito Haddad (PT), muito preocupado com o povo (pra não dizer o contrário) legitimou a aprovação da Câmara Municipal do corte de 15% na verba da área social, apesar do recorde na arrecadação. Pra enrolar, aumentou o valor do ‘bolsa-aluguel’, tão baixo que parte das famílias continuou nas calçadas por não encontrar um lar digno. Não aumentou da mesma forma a distribuição do benefício, nem de moradia.

“Por conta dessas operações que estão havendo, principalmente na Radial Leste, que é sentido dos jogos da Copa, em que estão expulsando o povo com uso de muita violência, estamos aqui fazendo esse futebol como um ato simbólico contra a Copa do Mundo que exclui a galera de rua”, disse o integrante do CATS.

Charge do cartunista Carlos Latuff denuncia a repressão do governo Dilma aos protestos contra as injustiças para a realização da Copa do Mundo no Brasil. 


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Governo federal “faz de conta” não ver irregularidades nas obras do Itaquerão

Empresa responsável pela morte de operário é terceirizada da terceirizada contratada da AmBev, que fez parceria com o governo estadual

Itaquerão: trabalho precarizado e vistas grossas dos governosFoto: ABr

Uma declaração do superintendente do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) em São Paulo, Luiz Antônio Medeiros, escancarou que os governos não apenas ignoram a evidente precarização do trabalho através das terceirizações, como fecham os olhos para as mortes de operários.

Medeiros afirmou que, com respaldo do ministro Manoel Dias, o MTE está “fazendo de conta” que não vê irregularidades nas obras do estádio que vai receber seis jogos da Copa do Mundo, a Arena de São Paulo, conhecida como “Itaquerão”.

“Se esse estádio não fosse da Copa, os auditores teriam feito um auto de infração por trabalho precário e paralisado a obra. Estamos fazendo de conta que não vemos algumas irregularidades”, disse o superintendente da SRTE/SP em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo.

Antes de tudo, não é verdade, e chega a ser uma ofensa, apontar que os auditores fiscais estão fazendo “vista grossa” para os problemas de segurança na construção. Quem faz isso é o governo Dilma (PT), omisso diante das mortes nas obras da Copa pelo país afora; o governo Alckmin (PSDB), responsável pelas terceirizações nos canteiros em São Paulo; e as empreiteiras, preocupadas apenas com o lucro.  A afirmação de Luiz Antônio Medeiros não pode recair sobre os servidores federais. Como todos os trabalhadores, os auditores fiscais merecem respeito!

Enquanto o governo do PT “faz de conta” não ver os problemas, três operários já morreram na obra do Itaquerão. A última vítima foi Fábio Hamilton da Cruz (23 anos de idade), que morreu, no dia 29 de março, após cair da altura de nove metros durante a colocação de arquibancadas. Antes dele, faleceu, no dia 27 de novembro do ano passado, Fábio Luís Pereira (41 anos de idade) e Ronaldo Oliveira dos Santos (43 anos de idade), quando um guindaste tombou.

Não às terceirizações!
Por trás desses “acidentes” está o crescente processo de terceirização.  Isso comprovadamente prejudica a proteção dos trabalhadores, sendo cada vez mais grave até se tornar fatal. A cada 10 mortes causadas por acidente de trabalho, 6 acontecem em empresas terceirizadas. Geralmente, os terceiros não recebem capacitação e EPI’s (Equipamentos de Proteção Individual), além de serem submetidos a jornadas de trabalho maiores e a remunerações mais baixas.

Fábio da Cruz era funcionário da WDS Construções, empresa terceirizada pela Fast Engenharia que, por sua vez, é terceirizada pela AmBev, a parceira escolhida pelo governo Alckmin para a instalação das 20 mil arquibancadas provisórias com finalidade de aumentar a capacidade do Itaquerão conforme as exigências da Fifa.

O próprio superintendente de SRTE/SP reconheceu que as condições de trabalho no estádio são precárias. Mas, sua declaração, no mínimo irresponsável, deu a entender que os governos – tanto do PT, quanto do PSDB – estão mais preocupados com a realização da Copa do Mundo que com a vida dos operários.

“Isso é trabalho precário. Não vamos nem entrar neste assunto porque vai atrasar ainda mais a obra. Falei com o ministro e ele deu respaldo. Estamos fazendo de conta que não estamos vendo”, afirmou Medeiros.

Logo depois das declarações chocantes da maior autoridade do MTE em São Paulo, o órgão lançou uma nota pública negando que a inspeção estaria se omitindo no cumprimento do seu papel constitucional. Entre cinco pontos abordados, o texto esclarece que “Em nenhuma fiscalização admite-se que qualquer outro interesse sobreponha-se à proteção à saúde e à vida dos trabalhadores”.

Mas, será que os operários que morreram estavam usando EPIs? Havia itens de proteção coletiva? O MTE verificou que não.

Somente depois das fatalidades, após exigências do ministério, a empresa Fast Engenharia cumpriu algumas medidas de proteção coletiva, como a inclusão de redes nos ambientes altos, andaimes e a obrigatoriedade de que haja um técnico de segurança por andar.

No dia 11 de abril, o órgão federal autorizou a retomada da obra na arquibancada provisória norte, que até então estava interditada devido à morte Fábio da Cruz. Entretanto, Medeiros também havia dito à Folha que, após a morte de Cruz, os fiscais constataram que havia operários trabalhando sem EPIs no local.

Agora, durante e depois da Copa, vai ter luta!
Mais uma vez, como se o Brasil fosse o “país das maravilhas”, o governo Dilma “faz de conta” que o problema foi solucionado para que a obra do Itaquerão seja entregue no prazo limite estabelecido pela Fifa, o dia 15 de maio, menos de um mês antes da abertura do megaevento.

Oito operários já morreram nas obras da Copa e os governos permanecem omissos. Ao invés de se preocuparem com a vida dos trabalhadores, preocupam-se em gastar aproximadamente R$ 2 bilhões com aparato repressivo para evitar protestos durante o Mundial. Protestos estes que questionam justamente quais são as prioridades dos governos: saúde, educação, transporte e moradia ou o não-legado, como os estádios cobertos de sangue?

O governo Lula (PT), em 2007, havia dito que não havia dinheiro público nos estádios, porém, segundo dados da Controladoria Geral da União (CGU), estão sendo gastos R$7,5 bilhões. Do custo total de R$25,569 bilhões, divulgado em setembro de 2013, a maior parte vem de recursos públicos e financiados e apenas R$3,7 bilhões saem da iniciativa privada.

Já foi noticiado que o orçamento da Copa só fez aumentar, chegando a 28 bilhões. Mas alguns projetos foram retirados para esse valor não extrapolar. Quais projetos? A maioria do que seria legado para o povo brasileiro, especialmente os de mobilidade urbana.

Os trabalhadores não vão ficar parados diante dessa situação. O Encontro “Na Copa Vai Ter Luta”, realizado no dia 22 de março, foi uma demonstração de que a criminalização dos movimentos sociais e da pobreza promovida pelas elites não vão intimidar a população de se manifestar contra os desmandos da Copa e da Fifa. Um calendário de mobilizações foi definido no evento e está em curso.

Faltando dois meses para a abertura do Mundial, em pelo menos 10 cidades, acontecem 5 protestos por dia. Isso não deixa dúvidas: Agora e na Copa, vai ter luta!



segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Eu tenho ligação...

Eu tenho ligação com Sandra Fernandes, professora e militante da causa feminista, e seu filho Cauã, assassinados brutalmente pelo namorado de Sandra, em 2014;
Com Santiago Andrade, cinegrafista que, sem estar com equipamento de proteção individual que deveria ser fornecido pela empresa, faleceu após ser atingido por um rojão em uma manifestação do Rio de Janeiro, em 2014;
Com Marcleudo Ferreira, Raimundo da Costa, José Antônio Nascimento e Antônio José Martins, operários que morreram nas obras da Copa do Mundo, na Amazônia, entre 2013 e 2014;
Com Kaique Augusto Batista, jovem homossexual, encontrado morto com sinais de crime homofóbico, e que teve a ocorrência registrada como suicídio, em 2014;
Com Douglas Rodrigues, jovem negro, morador da periferia da Zona Norte de São Paulo, assassinado pela Polícia Militar, em 2013;
Com Amarildo Souza, trabalhador negro, morador da Rocinha no Rio de Janeiro, assassinado pela Polícia Militar (que tentou fazer a opinião pública acreditar que tinha envolvimento com o tráfico, mas não conseguiu), em 2013;
Com Ricardo Gomes, funcionário terceirizado da Unifesp em Santos, que respondeu a uma ofensa por policiais militares, foi agredido e possivelmente assassinado pelos mesmos, em 2013;
Com Lucas Fortuna, jornalista e militante do movimento LBGT, encontrado morto com vários indícios de assassinato por motivo de homofobia, mas até hoje dizem que a causa da morte foi afogamento, em 2012;
Com Jaelson Melquíades, Luciano Alves, José Elenilson e Chico do Sindicato, dirigentes do MST em Alagoas, mortos a mando de políticos de direita e grileiros durante conflitos por terra, respectivamente em 2005, 2003, 2001 e 1995;
Com Galdino dos Santos, líder indígena que foi queimado vivo enquanto dormia em um ponto de ônibus em Brasília, em 1997;
Com Chico Mendes, seringueiro e sindicalista que lutava pela preservação da Amazônia, assassinado por fazendeiros com a conivência do Estado (que ignorou seu apelo por proteção), em 1988;
Enfim, com os que tombaram nas mãos da intolerância, do racismo, do machismo, da homofobia, da ganância, do egoísmo, da falta de caráter e da falta de amor;
E também com os que estão de pé, firmes e fortes;
Com todos que sonham e lutam por um mundo livre de opressões, exploração e injustiças;
Com Carlos Lima, historiador e coordenador estadual da Comissão Pastoral da Terra em Alagoas;
Com Zé Maria, operário, sindicalista e presidente nacional do PSTU, preso por lutar contra a ditadura militar e anistiado político após 35 anos;
Com os manifestantes detidos e presos durante as jornadas de junho de 2013 e também durante os protestos contra os gastos com a Copa do Mundo em detrimento a falta de investimento nos serviços públicos, sejam eles anarquistas adeptos à Black Bloc (embora discorde de seus métodos) ou não, socialistas ou comunistas, ou simplesmente indignados com os problemas sociais.
E, se o leitor achou que eu diria "eu tenho ligação com o Freixo", estava certo. Apesar das discordâncias, por que não dizer?
Eu também tenho ligação com Marcelo Freixo, professor e defensor dos direitos humanos, que foi presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito das Milícias e teve seu irmão assassinado por milicianos, em 2006.
As ligações às vezes doem, machucam e sangram; às vezes florescem, crescem e amam. O bom é saber que tenho ligações com tudo o que dá sentido à vida.
E, se lutar é crime, podem me prender. Mas, saibam, não há presídio que prenda sonhos. 

Lara Tapety

*Este texto estava sendo produzido no meu diário pessoal, que acabou as páginas e ainda não tive tempo nem dinheiro para comprar outro. Isto é, trata-se de ideias e ideais pessoais, que não necessariamente refletem a posição da organização política a qual faço parte.


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Ato nacional contra injustiças da Copa retoma a jornada de lutas iniciada em junho de 2013


O dia 25 de janeiro de 2013 foi marcado por protestos com o tema “Não vai ter Copa”, em várias cidades do Brasil. Em São Paulo, mais de 2500 pessoas participaram da caminhada pacífica pelo Centro da cidade. O recado para o governo Dilma e para a Fifa foi dado: na Copa, vai ter luta!
O protesto paulista contou com diversas “colunas” formadas por sindicatos, centrais sindicais, movimentos sociais, fóruns, partidos e organizações políticas de esquerda e outros grupamentos. Entre os sindicalistas, havia representantes do Sindsef-SP, Sindicato dos Metroviários, Sintrajud, do Movimento Nacional de Oposição Bancária e da CSP-Conlutas.
O servidor público do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e diretor do Sindsef-SP, Ismael Souza, que participou da maioria dos protestos realizados em junho de 2013 e a servidora do Judiciário Federal, Ana Luiza, destacaram que essa nova manifestação é importante porque dá continuidade ao processo de luta iniciado pela juventude, que foi às ruas junto aos trabalhadores para reivindicar mudanças.
"A Copa não traz mudanças, traz mais exploração. Além disso, o que vemos é a exclusão, onde os trabalhadores vão assistir de casa o espetáculo da burguesia, dos patrões. Estamos em uma luta por direitos, o direito à saúde, educação, moradia e transporte. Direitos básicos que a cada ano vêm sendo negados pelos governos", disse Ismael.
Outro ponto criticado pelo representante do Sindsef-SP foi que "o serviço público foi colocado de lado. O que o governo está fazendo é terceirizar mais ainda, porque no evento esportivo será necessário aumentar os serviços de saúde e segurança, e tudo está sendo terceirizado". Deste modo, a Copa do Mundo, além de desviar recursos que poderiam ser investidos em áreas fundamentais, está ligada à precarização do trabalho.
Ana Luiza acredita que os trabalhadores do serviço público de todo o Brasil não aceitam os gastos absurdos para a construção desses estádios. "Eu, como trabalhadora do serviço público federal, assim como meus colegas, tenho que estar presente para construir essa luta, para que a vitória seja de todos nós", falou.

“Da Copa, da Copa, da Copa eu abro mão. Quero mais dinheiro para saúde e educação”

Em meio a um público eclético, estava Vera (11 anos de idade), uma estudante de escola pública que pediu a mãe acompanhá-la. Questionada pelo motivo de sua participação disse: “Eu estou aqui pelo mesmo motivo de todo mundo que também está, porque eu não quero Copa, eu quero dinheiro para educação, para a saúde...”.

“Chega de bomba e repressão, é meu direito à manifestação”



O protesto iniciado no vão livre do Museu de Arte de São Paulo (MASP) se manteve pacífico durante quase todo o percurso. “Chega de bomba e repressão, é meu direito à manifestação”, foi uma das tantas palavras de ordem que os manifestantes repetiram.
O dentista cirurgião, José Luis (59 anos) disse que sua família e amigos não acreditaram quando ele informou que participaria do protesto. “Acham que aqui só tem jovem, estudante, mas estou aqui defendendo nossos direitos. Também participei dos protestos contra o aumento da passagem no ano passado”, explicou. O cirurgião contou que em uma manifestação no mês de junho precisou correr para dentro de um prédio para fugir da violência policial e que esta é a principal razão da preocupação de sua família: “Eles têm medo que eu tome uma ‘borrachada’ e me machuque, porque vivo da minha mão”.


Quando a caminhada se aproximou de onde estavam acontecendo os shows de comemoração do aniversário de 460 anos da cidade, a Polícia Militar entrou em confronto com os participantes, obrigando-os a mudar o caminho.


A confusão iniciou na Rua Barão de Itapetininga, na região do Theatro Municipal, quando a PM, que já havia levado reforço do Batalhão de Choque e cercado a passeata por muitas ruas, lançou duas bombas de gás lacrimogêneo por volta das 20 horas.


Após a truculência da polícia, houve dispersão do protesto. Alguns grupos partiram em retirada e outros seguiram em passeata, sendo reprimidos com o gás e balas de borracha.
Segundo a própria PM, 135 pessoas foram detidas – 12 eram menores de idade. Elas foram liberadas na manhã do domingo, 26. O mais absurdo é que um jovem de 22 anos foi atingido por dois tiros (um no tórax e um na genitália) com arma letal dos policiais, e o estado dele é considerado grave.


Houve atos contra as injustiças causadas pela realização da Copa do Mundo no Brasil em pelo menos 13 capitais , na tarde e início da noite deste último sábado. Além de São Paulo, destacaram-se na imprensa em geral as manifestações realizadas em Fortaleza, Natal, Rio de Janeiro, Recife, Curitiba, Goiânia, Belo Horizonte e Manaus.


Solidariedade internacional


Dia 25 também foi o “Dia global contra o cerco do ditador Bashar ao campo de palestinos na Síria, Yarmouk”. A ativista síria Sara al Suri esteve presente com a bandeira de seu país no espaço onde estava a CSP-Conlutas e a Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL), que levaram cartazes prestando solidariedade ao povo palestino e sírio.









Por Lara Tapety
(texto e fotos)

Feministas discutem a conjuntura política e iniciam os preparativos para o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora

Reunião de preparação das ações do dia 08 de março, no CIM. Foto: Lara Tapety

No dia 22 de janeiro, dezenas de feministas lotaram o espaço do Centro Integrado da Mulher (CIM) para organizar as ações do histórico dia 08 de março. A maioria das participantes fazem parte de coletivos, organizações, sindicatos e movimentos sociais. Entre eles, o Movimento Mulheres em Luta (MML), a Marcha Mundial de Mulheres, a Assembleia Nacional dos Estudantes – Livre (ANEL) e, claro, o Sindsef-SP também não ficou de fora. A secretaria contra opressões e servidores da Defensoria Pública da União (DPU), Brisa Batista, marcou presença.
A mulherada discutiu a conjuntura política com enfoque no gênero. Consecutivas intervenções apresentaram consenso de que o Brasil não é o mesmo desde a onda de protestos de junho de 2013 e fizeram questão de frisar o papel das mulheres, que eram maioria entre os manifestantes, nesse processo de luta.
“O fato de ter mais mulheres na rua é muito forte, considerando que a nossa educação ainda diz que devemos ficar em casa. A gente tem a chance de que o 08 de março de 2014 seja mais um capítulo dessa história que começou no ano passado”, frisou Camila Lisboa, do MML.
Para Camila, o movimento feminista deve conciliar as reivindicações das mulheres com a crítica à realização da Copa do Mundo: "A gente quer menos dinheiro para a Copa e mais dinheiro para investimento nos programas de combate à violência". Ela denunciou, ainda, que no ano de 2012 houve mais de 50 mil denúncias de estupros. "Não queremos que o Brasil se torne como a Índia nesse quesito, e mais, precisamos defender a luta das companheiras deste país", disse.
Por outro lado, quando se fala em combate a violência, as feministas deixam claro que não se trata de usar violência estatal para isto. Sandra Mariano, da Articulação Popular e Sindical de Mulheres Negras do Estado de São Paulo, questionou o orçamento do governo federal destinado para a segurança pública. "É um absurdo que o investimento em bala e cassetete seja maior do que em educação e saúde", frisou.
Sandra aproveitou a oportunidade para falar sobre o fenômeno “rolezinhos”, em que jovens da periferia se encontram para passear nos shoppings. Para a senhora, os "rolezinhos" escancaram que "quem é visado pela repressão policial tem cor e classe, são os negros e pobres".
Ainda a respeito da repressão e da criminalização, Talita Tecedor, do Coletivo Ana Montenegro, falou que há um crescimento de movimentos fascistas. Ela relatou casos de que militantes de organizações de esquerda foram expulsos de manifestações por estarem caracterizados com camisas e adesivos.
Além disso, Talita destacou também como um elemento novo na situação do país o aumento dos "estupros corretivos" (quando as vítimas são violentadas para mudarem sua orientação sexual de lésbica para heterossexual) e do tráfico de mulheres, principalmente para o entorno das obras dos megaeventos (isto é, garotas são exploradas sexualmente por homens a serviço da construção dos estádios para a Copa).
Entre outros pontos discutidos estavam a luta pela regulamentação do trabalho doméstico, que ainda não foi aprovada no Congresso Nacional; por políticas públicas para as mulheres; a denúncia do "Bolsa Estupro" e a necessidade de exigir sua anulação e a polêmica reforma política.
Ao final, as ativistas do MML convidaram as companheiras para participar do início da reunião da executiva do movimento, que irá discutir a Campanha Nacional Contra a Violência a Mulher, a partir das 9h deste próximo sábado, 24/01, na sede nacional da CSP-Conlutas (Rua Boa Vista, 76 – 11° andar). A iniciativa da campanha foi uma deliberação do 1º Encontro do MML, que contou com a presença de 2.300 pessoas, em outubro do ano passado.
As próximas reuniões de organização das manifestações do dia 08 de março vão acontecer todas as quartas-feiras, às 18h, na sede da APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), localizada na Praça da República, nº 282.




Por Lara Tapety
(Imprensa Sindsef-SP)

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Serviço Público Padrão Fifa


Neste ano de Copa do Mundo, a campanha salarial dos servidores federais chama atenção para a necessidade de o governo investir e valorizar o setor público, ao invés de privilegiar os bancos, as grandes empresas (das empreiteiras e do agronegócio) e dedicar quase 50% do orçamento da União para o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública.
Mais do que nunca, a palavra de ordem “Da Copa, eu abro mão. Quero dinheiro pra saúde e educação”, tão entoada durante a jornada de protestos de junho de 2013, comtempla a realidade do país. A presidente Dilma Rousseff, ao contrário do que pronunciou, não escutou as vozes das ruas. Isso fica evidente em qualquer comparação entre as reivindicações dos manifestantes e os investimentos do governo federal. As prioridades não são as mesmas.
Segundo dados da Auditoria Cidadã da Dívida, enquanto o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) para 2014 prevê um total de despesas de R$ 2,4 trilhões, dos quais R$ 1,002 trilhão (42%) é destinado para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública; a soma de investimentos em setores fundamentais como saúde, educação e transporte não chega a 10%. Já para os gastos com pessoal (os servidores públicos), o PLOA prevê somente a segunda parcela do reajuste anual de 5%, que sequer cobre a inflação do período.
Além disso, em um levantamento de dados do Portal da Transparência da CGU (Controladoria-Geral da União) foi possível verificar que em 9 das 12 cidades-sede o financiamento federal para a construção e reforma dos estádios para a Copa é maior do que os repasses da União para a educação nos últimos quatro anos.
Nada mais oportuno que a Campanha Salarial 2014 do funcionalismo tenha o tema “Jogando juntos a gente conquista – Serviço Público Padrão Fifa” e o subtema “Servidor público federal: sem este time o Brasil não entra em campo – Valorização, já!”. Se o governo quer um Brasil bonito pra gringo ver, que comece a investir verdadeiramente em saúde, educação, moradia e transporte públicos, fornecendo, além de infraestrutura, salários dignos e condições de trabalho!
Diversas ações já estão em andamento para dar fôlego à campanha. Os materiais de divulgação estão prontos. Foram criados modelos de adesivos para carro, para uso geral, anúncio, cartaz, faixa, folheto, pirulito e imagens para redes sociais (clique aqui para download). O Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos Federais também preparou um jornal especial sobre o assunto (veja aqui).
O calendário de lançamento da campanha foi reforçado durante a reunião do Fórum na última terça-feira, 14, em Brasília, com a confirmação de mobilização nos estados no próximo dia 22 e atividade em Brasília no dia 5 de fevereiro. No dia 6, as entidades nacionais promovem um debate sobre a dívida pública. Haverá uma reunião ampliada das mesmas no dia seguinte.
Entre as bandeiras do funcionalismo estão: a luta por uma política salarial permanente; paridade entre ativos, aposentados e pensionistas; definição de data-base; regulamentação da negociação coletiva; diretrizes de plano de carreira; retirada de projetos no Congresso Nacional que prejudicam os trabalhadores públicos; cumprimento por parte do governo de acordos e protocolos de intenções firmados em processos de negociação, bem como a antecipação da parcela de reajuste prevista para janeiro de 2015 e o reajuste em benefícios.
Desde já, com a unificação das lutas, é importante que todas e todos se engajem nas atividades da campanha para arrancar o atendimento às reivindicações antes da realização da Copa. Caso o governo se negue a negociar e atender a pauta da categoria, a partir da segunda quinzena de março inicia o período indicativo da greve dos servidores federais. O governo Dilma que se prepare! 2014 promete!



*Por Lara Tapety, com informações da Condsef, 
Comitê Popular da Copa e Fórum das Entidades
Nacionais dos Servidores Públicos Federais.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Crítica à novela Amor à Vida: Globo, os palestinos não se veem por aí

Em "Amor à Vida", Pérsio revela para Rebeca que foi um terrorista - Foto: Divulgação / TV Globo

Em 19 de dezembro, foi ao ar na chamada “novela das nove” da TV Globo, intitulada “Amor à vida”, uma cena que não deixa dúvidas a quem serve à emissora: aos interesses hegemônicos e ao império. A telenovela líder da audiência em âmbito nacional, seguida pelo Jornal Nacional, apresentou na trama um romance entre um palestino, Pérsio (Mouhamed Harfouch), e uma judia, Rebeca (Paula Braun).
No capítulo em questão, o primeiro deles declara que pertenceu a uma “célula terrorista” e se diz arrependido: “Eu queria ser um homem bomba. Achava que era um sacrifício justo pela causa do meu povo. Só não fui porque eu sou filho único, a minha mãe me procurou, insistiu demais pra eu desistir. Mas eu ajudei a organizar um atentado. Um amigo meu, um amigo próximo, foi o homem bomba. Ele entrou num ônibus em Jerusalém e explodiu, matando muita gente. Mulheres, crianças… crianças como o seu irmãozinho, Rebeca. Eu me senti culpado, quando vi o seu irmão, quando falei com a sua família. Eu percebi que a guerra, o terrorismo, atinge pessoas indefesas, crianças. Vendo aquele menino sorrindo, eu percebi que um dia eu quis atacar crianças como ele. Como eu posso dizer que aquele menino é meu inimigo?”.
Alguns capítulos depois, no dia 30, em uma nova conversa, Rebeca se recusa a falar com Pérsio, a não ser profissionalmente, pelo que ele quis fazer com “seu povo”. E em cena no dia 7 de janeiro último, a personagem busca conselhos junto a um rabino, já que teria se apaixonado por “um árabe, um palestino”, pertencente a um “grupo terrorista”.
O diálogo que inaugura essa farsa é permeado por desinformação, distorção e manipulação da verdade. Rebeca chega a afirmar que há muitos casais judeus e palestinos em Israel, como conviria a qualquer estado democrático. A verdade é que a própria convivência está comprometida. O apartheid imposto aos palestinos impede até que vivam no mesmo bairro. Alguém poderia afirmar que conhece um caso assim na atualidade. Mas não é essa a regra. Os palestinos que vivem onde hoje é Israel (território palestino até 1948, ano da criação desse estado como exclusivamente judeu) são considerados cidadãos de segunda ou terceira categoria, discriminados cotidianamente – há 30 leis racistas contra essas pessoas, que lhes impedem ter os mesmos direitos. Há dezenas de aldeias em que vivem que sequer são reconhecidas por Israel, o que significa que não lhes são assegurados serviços essenciais, como fornecimento de eletricidade, água, educação e saúde de qualidade.

Quem é o terrorista?
Em 1948, ano que na memória coletiva árabe é conhecido como “Nakba”, a catástrofe, foram expulsos de suas terras e propriedades cerca de 800 mil palestinos e aproximadamente 500 aldeias foram destruídas para dar lugar a Israel. Massacres exemplares são hoje comprovados. Os palestinos, desumanizados desde o início desse projeto de limpeza étnica e colonização de suas terras, não foram apagados da história graças a sua resistência – apresentada na telenovela da Globo como terrorismo. Resistência reconhecida pelo direito internacional como legítima diante da ocupação.

Mulher segura cartaz com charge do brasileiro Latuff sobre o bloqueio à Gaza, no Dia Internacional de Jerusalém (Al-Quds) em Nova York - Foto: Bud Korotzer
Ademais, os chamados atentados com homens bomba, atos desesperados perante o silêncio do mundo e a falta de alternativas, há muito foram abandonados. A contextualização histórica sobre o terror de Estado que fabricou esses “homens bomba”, durante um tempo determinado, ficou fora da telinha. Assim como os contínuos ataques israelenses, que atingem, sobretudo, crianças e mulheres, com tecnologias de última geração vendidas depois ao mundo. Os laboratórios humanos em que se transformaram os palestinos no shopping center que se converteu Israel à venda de suas parafernálias militares também não encontraram lugar no diálogo que foi ao ar na “novela das oito”.
O autor de “Amor à vida”, Walcyr Carrasco, reforçou, assim, mitos que são denunciados pelo historiador israelense Ilan Pappe em seu artigo “Os dez mitos de Israel”. Entre eles, de que a luta palestina não tem outro objetivo que não o terror e que Israel é “forçado” a responder à violência. Segundo ele, a história distorcida serve à opressão, à colonização e à ocupação. “A ampla aceitação mundial da narrativa sionista é baseada em um conjunto de mitos que, ao final, lançam dúvidas sobre o direito moral palestino, o comportamento ético e as chances de qualquer paz justa no futuro. A razão é que esses mitos são aceitos pela grande mídia no Ocidente e pelas elites políticas como verdade.”
O Brasil não é exceção. Na contramão da campanha global por boicotes ao apartheid israelense, o governo federal se tornou nos últimos anos o segundo maior importador de tecnologias militares da potência que ocupa a Palestina e porta de entrada dessa indústria à América Latina. E sua cumplicidade com a opressão, ocupação e apartheid a que estão submetidos os palestinos é justificada a milhares de espectadores desavisados da novela da Globo, através de um discurso que reproduz a versão falsificada da história e se fortalece perante a representação orientalista – em que os árabes seriam “orientais” bárbaros e atrasados, ante cidadãos pacíficos e civilizados, segundo explicita o intelectual palestino Edward Said em seu livro “Orientalismo, o Oriente como invenção do Ocidente”.

Democratização já!
Num cenário de concentração midiática, preconceitos como esse – não são os únicos – são especialmente graves. Assim como é bastante preocupante que o tradicional show natalino do cantor Roberto Carlos, exibido na mesma emissora ao final de 2013, tenha sido patrocinado pela marca Café Três Corações, que tem como acionista majoritária uma empresa israelense cuja colaboração com a opressão em terras palestinas já foi amplamente denunciada.     Apesar do crescimento acentuado de usuários da internet – que chegaram à marca de 94,2 milhões ao final de 2012, segundo o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) –, a maioria da população brasileira ainda se informa sobretudo pela TV, presente em 96,9% dos domicílios, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE). Enquanto a propaganda nesse meio é o principal impulsionador ao consumo, programas de entretenimento como as telenovelas igualmente moldam comportamentos, conceitos e ideias. E a produção desses encontra-se nas mãos de apenas seis famílias, detentoras das concessões públicas que lhes garantem espaço para difundir livremente preconceitos e falsificações históricas. Outorgas concedidas muitas vezes ao arrepio das leis vigentes, renovadas pelo governo brasileiro sem qualquer critério para garantir a pluralidade e diversidade na produção cultural.


Para transformar a realidade, é fundamental reforçar a luta pela democratização das comunicações e denunciar essas distorções que grassam na TV brasileira. É importante se somar às vozes que, nas manifestações de junho de 2013, protestaram contra o monopólio da mídia e elegeram para tanto o lema: “Globo, a gente não se vê por aqui”.     



Por Soraya Misleh,
da Frente em Defesa do Povo Palestino e do Movimento Palestina Para Tod@s

*Texto revisado e com imagens adicionadas pela autora deste blog.