Língua suja parte da construção para o mar de Guaxuma.
Foto: Lara Tapety
A especulação imobiliária segue com força no litoral norte! Enquanto o processo de revisão do Plano Diretor Municipal (PDM) de Maceió vai para seu 3º ano de atraso, os prédios continuam sendo construídos sem o saneamento básico na região e sem a mínima infraestrutura urbana.
Em Guaxuma, nem a V2 Construções, nem a Cerutti Engenharia (construtoras dos empreendimentos Gran Marine e Paradise Beach, respectivamente) se responsabilizam pela língua suja próxima aos seus prédios em obras. O problema é jogado para a comunidade, como se o setor da construção civil não tivesse nenhuma ligação com a política no estado. 
Prédios da Cerutti Engenharia e V2 Construções no local do despejo irregular de esgoto.
Foto: Lara Tapety
A população não é boba! Primeiro, é, no mínimo, estranho o local da saída do esgoto – Quem está fazendo a drenagem para o mar? Depois, todos nós sabemos quem financia as campanhas eleitorais. 2018 vem aí e o balcão de negócios está montado. 
Em 2014, após denúncia dos moradores, o diretor da V2 à época, Ronald Vasco Júnior, além de dizer à imprensa que a água é da comunidade (conhecida como “Poeirão”) do outro lado da pista , alegou que não se trata de esgoto. Contou, ainda, que buscou uma solução junto à administração pública: “Não é água de esgoto, mas doméstica. Dessa que sai da torneira. Procurei a Prefeitura em março de 2013, assim que limpamos o terreno, para que alguma solução fosse implantada ali. Mas até agora nada foi feito”, relatou Ronald Júnior. 
No ano passado, uma nova denúncia motivou outra notícia sobre o mesmo caso. Dessa vez, o responsável pela obra da V2, Elvio Gomes, reafirmou que construtora não tem nenhum tipo de participação no despejo da água suja ao mar. Porém, explicou: “Fazer uma obra com uma ‘língua negra’ na porta é ruim para os negócios. Além disso, nós temos um sério problema com mosquitos, então é até melhor que seja drenado até o oceano”. Não é mentira o que o engenheiro afirma a respeito dos mosquitos, considerando o alto número de doenças provocadas pelo aedes aegypti nos bairros do litoral norte, o que jamais justifica “tapar o sol com a peneira”. 

Esgoto vai se acumulando em frente à construção até escorrer para a praia de Guaxuma.
Foto: Lara Tapety
Ao que parece, a construtora entrevistada pela imprensa maceioense pouco se importa com os danos ambientais e o fato de a região não ter saneamento básico. A imagem vendida é o que vale. Será que os compradores estrangeiros sabem, por exemplo, que a região não tem saneamento básico, o abastecimento de água é precário e a eletricidade é inconstante? Ah, se soubessem o que é ficar mais de uma semana sem água nas torneiras… Ou mais de 12 horas sem energia elétrica… 
De um lado, observamos uma pressão do setor da construção civil para a liberação das obras. Doutro, os espigões sendo construídos à contramão dos debates realizados durante as audiências do processo de revisão do Plano Diretor. Vale lembrar que com a construção de garagens subterrâneas, o solo está sendo impermeabilizado, o que favorece a salinização da água já escassa na região. 
Língua suja escorre para o mar.
Foto: Lara Tapety
Enquanto o esgoto é canalizado para o mar, a prefeitura nada faz. Aliás, faz: paralisa o Plano Diretor – a lei maior sobre o planejamento urbano e que pressupõe debate democrático com participação da população, vai liberando a esmo licenças de prédios “pés na areia” com mais de 20 andares e, unilateralmente, alterando o zoneamento da cidade. Infelizmente, desde a reforma administrativa da prefeitura, com extinção e fundição de secretarias, a situação tem se agravado. 
Insistimos que o saneamento deve ser prioridade em todo município! Lutamos por isso, tanto dialogando com a comunidade de porta em porta e com a sociedade em geral nas redes sociais, quanto participando ativamente das audiências públicas do processo de revisão do PDM. Nele, tivemos propostas acatadas, como a nova definição do gabarito para as áreas, o escalonamento (prédios mais altos a medida em que se afastam da orla) e as cotas de solidariedade para grandes construções. Além disso, Garça Torta e Riacho serão incluídos como Zona Especial de Preservação. 
 Por meio de contato com os conselheiros da revisão do PDM, buscamos respostas e pressionamos pelo andamento do processo. Quase dois meses após uma reunião ocorrida no dia 20/09/2017, enfim, verificou-se a redação de partes do documento do novo Plano. Agora, a prefeitura sugere uma reunião para 5 dias antes do feriado de natal. 
Se, por um lado, o documento-base de orientação da política de desenvolvimento da cidade está congelado e sua revisão caminha a passos de tartaruga, as obras seguem a todo vapor e a cada dia um novo empreendimento é lançado com a imagem de ter uma estrutura moderna na beira-mar de uma praia paradisíaca. 
Se continuar nesse rumo, com prédios “pipocando” por todo litoral norte, daqui a pouco, não vai ter sequer passos de tartarugas, porque não haverá tartarugas! 
2018, ano eleitoral, o Plano Diretor Municipal deve seguir para votação na Câmara. Primeiro, é preciso fazer pressão para que ele seja votado e que haja divulgação disso; depois, que os debates em audiências públicas sejam respeitados, com a aprovação de acordo com a participação popular. 
Como o novo PDM ainda não está pronto, nossa petição continua! Se ainda não assinou, assine: http://goo.gl/pHcHJK


Por Lara Tapety (Jornalista MTb/1340, moradora do bairro de Garça Torta e integrante do Movimento Abrace a Garça)